Viu-o por entre as cortinas azuis do quarto. Não estava à espera que o velho a viesse procurar. Desceu devagar, como se receasse o que lhe vinha dizer. Tolice. Queria ou não queria saber? O homem também não parecia ter pressa. Aceitou a bebida quente que lhe ofereceu e ficou a adoçá-la com todo o cuidado, mexendo-a como se a tarefa fosse delicada e lhe absorvesse toda a atenção. Viu a ansiedade dela crescer e ainda assim não falou. Depois de beber pousou a chávena, olhou-a e finalmente disse:
- Tens que vir comigo.
Ela assentiu. Agarrou o casaco de malha verde que se encontrava perdido no sofá e seguiu-o.
A chuva que caíra dava um certo brilho à calçada e havia no ar aquele cheiro a aguaceiro de Primavera. Saíram da Vila pelo caminho de cima e embrenharam-se na floresta. Numa clareira o velho parou e olhou em volta a certificar-se que ninguém os observava. Andaram mais um pouco até um poço cheio de musgo, rodeado por uma escada que descia até ao que pareciam ser as profundezas. No fim havia uma porta de madeira preta que o velho abriu. Lá dentro o cheiro a mofo não deixava sentir mais nada. Odiava esse odor. Estava escuro. Por isso não se mexeu. O homem acendeu uma lanterna poderosa e passou à sua frente. No fim de um corredor interminável, mais uma porta que o velho voltou a abrir. Aí o ambiente era completamente diferente. A luz entrava pelas muitas janelas dando a sensação de cegueira momentânea.
- Fizemos o caminho das trevas para a luz, reparaste?
Eduarda não respondeu. Estava numa sala em forma de elipse. Parecia uma biblioteca.
Onde estamos?
- Na casa da Irmandade.
- Quem toma conta dela?
- Tomamos todos.
- E o dono?
- É o Mágico.
Eduarda sentou-se uma poltrona vermelha e ficou a aguardar que o velho falasse.
- A profecia é um livro.
- E como pode um livro gerar tanto segredo.
- Os livros podem gerar muitas coisas, dependendo do que dizem… Os livros contêm ideias. Ideias de homens inspiradas por Deus ou pela sua criação onde se insere o próprio homem e a respetiva emoção.
- Só por Deus?
- Deus é o universo, a dualidade das coisas, a multiplicidade e o infinito.
- Sim.
- Um livro pode ter muito poder, ou nenhum.
- Este tem o poder de mudar a humanidade e o mundo. Para isso tem de chegar às pessoas.
- E porque o escondem então.
- Até agora fizemo-lo para o proteger. Mas chegou a altura.
- Não entendo. Pelo que percebi esse livro está publicado. Circula. Foi já lido por milhões de pessoas.
- Circula no meio literário mas não lhe foi dada a devida importância.
- Sim mas para quê esconder o que já foi revelado?
- É como se fosse uma cópia de segurança.
- Acha que não foi entendido?
- As pessoas tomaram-no por ficção. E embora tenham sido tocadas por ele, não o encararam como uma realidade.
- Milhões de pessoas leram o livro e nada mudou.
- As pessoas leram mas não viveram as experiencias propostas.
- E qual a relação da minha mãe com isto?
- A tua mãe provou a veracidade dos relatos do livro.
- Como?
- As capacidades que tinha permitiam-lhe vivenciar toda a evolução num período curto de tempo.
- Ela consentiu?
- Sim naturalmente. A Clara era voluntária e sabia que estávamos a documentar as suas vivências.
- Gostava de aceder a essa documentação.
- Um dia viremos com mais tempo.
- Então acha que a Profecia não é apenas mais um livro.
- A tua mãe provou que é um manual de iniciação à evolução dos seres humanos.
- Isso parece-me utópico.
- O ceticismo é importante para não darmos as coisas por garantidas, mas quando em excesso pode tornar-se apenas lastro que não te deixa elevar.
- A Profecia é então a nova Bíblia.
- É mesmo. Até a numeramos de forma a poder cita-la com facilidade.
- Sabe, este tipo de sociedades faz-me confusão. Nunca gostei de Seitas.
- Nós não somos uma seita. Somos uma irmandade. Uma comunidade fraterna que pretende o elevar da consciência humana.
- Isso não é um bocadinho ambicioso? Para não dizer arrogante?
- O que há de errado em sonhar um outro mundo?
- Nada. Posso ver o livro?
- Em cima da mesa está uma cópia.
- Parece manuscrito.
- e é. Foi copiado à antiga e ilustrado com iluminuras.
- Foi o pintor?
- Sim.
- É uma obra de arte.
- Sem dúvida.
Eduarda passou algumas páginas com cuidado. O livro libertava uma espécie de luminosidade.
- Vamos voltar.
Ela não se opôs. Desta vez saíram pela frente. A erva alta oscilava o seu verde suavemente. Seguiu o velho pelo carreiro sem dizer nada. A vegetação tornou-se menos densa e a estrada apareceu no horizonte em escuro contraste.
Já na cidade o velho segurou-a pelos ombros e disse-lhe.
- Se pensas que a montanha pariu um rato, não estás a ver o alcance e a riqueza que a Profecia contém.
Ela não respondeu. Despediu-se e iniciou o caminho para casa.
A MÚSICA E O CINEMA
Formas inequívocas de expressão humana, a música e o cinema há muito que se misturaram. Nalguns casos passaram a ser um só. Noutros, as fronteiras ainda se delimitam com fervor. Existe quem relegue a música para o plano de mera funcionalidade e quem a entenda como parte integrante de um discurso que comporta muito mais do que o elemento gráfico e visual.
Ao entrarmos numa sala temos uma imagem de tudo aquilo que a compõe. E prestamos mais ou menos atenção a este ou àquele pormenor em função da nossa personalidade e estado de espírito. Emocionalmente reagimos ao espaço. Temos a sensação de bem ou mal estar. Porém, se estiver a ser tocada ou reproduzida música, qualquer que ela seja, o espaço preenche-se para além das coisas físicas que o compõem. E a emoção de conforto ou desconforto é ampliada em função da nossa relação com a peça musical e com a sua adequação ao espaço e à ocasião. Coisas podem passar-nos despercebidas e outras podem tornar-se evidentes, uma vez que estamos a receber um estímulo poderoso. O mesmo se passa no cinema. A música cria ou enfatiza a atmosfera do filme. Confere-lhe intensidade emocional. Para alguns, desvia a atenção do principal: a imagem. Para outros, ajuda a contextualiza-la.
Vejamos um pouco a história inicial da relação entre o cinema e a música.
Em 1895 o Grand Café no Boulevard de Capucines recebeu a primeira exibição de cinema com música. Uma iniciativa dos irmãos Lumiére. A projecção foi acompanhada por um piano. Nesses primeiros tempos não existia uma música escolhida em função do filme ou composta para ele. Existia apenas um pianista muito dotado em improviso. Citando Julien, (1987), Lima Barreto dá-nos conta de um manual para pianistas e organistas para cinema, de 1920 onde se lê: “A função da música é reflectir o clima da cena no espírito daquele que assiste, conduzir o espectador às emoções da história da imagem.” O que significa que passou a existir uma preocupação em formar estes pianistas e em dota-los de uma ideia sobre o que a sua actuação deveria produzir na relação com o filme projectado.
Algum tempo depois, em 1896 os cinemas de Londres possuíam já orquestras que tocavam durante a apresentação dos filmes. E em breve seriam inventadas máquinas para substituir a orquestra no cinema, como “One Man Pictures Orquestra”, “Filplayer”, “Movideon” ou Fotoplayer
Stlyle 50”.

O compositor e filósofo Camille Saint-Saens compôs pela primeira vez uma música para um filme: “O assassinato do Duque de Guise”, depois convertida no concerto opus 128 para cordas e piano. E estava assim aberta a porta para uma relação específica entre a música e o cinema. Sem prejuízo dessa possibilidade de criar algo especialmente para determinado filme, passaram a existir, como resposta a uma necessidade, catálogos em que as peças musicais eram registadas de acordo com os respectivos estilos e carga emocional. O mais conhecido foi o denominado “Kinobibliotek” de Giuseppe Becce publicado em Berlim em 1919. Também Sam Fox fez em 1913 uma cineteca, um arquivo musical e sonoro que disponibilizou aos realizadores interessados. E Zamelick fez uma compilação a que chamou “Moving Picture Music”. Foram assim criados os primeiros arquivos de músicas para cinema.
Ainda no âmbito dos filmes mudos, Edmund Meisel é uma referência importante já que, com o filme “The battleship Potemkin” marca o ponto a partir do qual a música e a imagem passam a ser unos. Deixa de haver música como acompanhamento da imagem e passa a haver uma abordagem ao cinema sonoro. Criando a parte sonora com os mesmos princípios da construção da imagem, estava encontrado o segredo para a sensação de unidade que se procurava.
Novos instrumentos como sejam as Ondas Martenot (Instrumento musical electrónico com teclado criado por Maurice Martenot em 1928) começam a ser utilizados em filmes. É o caso do filme “L’idée” em que são utilizadas pelo compositor Honegger. A música e a imagem tornam-se exigentes. Novas experiências vão sendo feitas e relações instrumentais vão sendo estabelecidas com a imagem. Por exemplo, Max Steiner usa uma pulsação constante e que acompanha a acção do filme. Num exemplo mais actual John Williams (conhecido por filmes como “Guerra das estrelas”) faz avançar o cinema electrónico com o som digital e os efeitos multipista. Em “Alien” este compositor dá ao som indistinto a forma de música. A musicalidade do ruído é na verdade uma preferência de alguns realizadores, de que Tarkovsky é um bom exemplo. Basta atentarmos na forma como trata sonoridade da água e deixa que o barulho se torne música sem entrar numa relação de abstracção face à imagem, (Michel Fano num dos escritos para uma conferência).
Apesar de o ruído poder tornar-se música, Michel Fano entende que o potencial de composição de um som não musical é relativamente reduzido por causa do seu valor enquanto ícone e porque não é parametrizável.
No filme “Nostalgia” de Tarkovsky os sons são a expressão da mente do personagem principal e não um espelho da realidade, tendo por isso um contexto próprio. E não será a única vez que a música reflecte, não a realidade, mas o espaço mental de um personagem. Já em “Taxi Driver” Bernard Hermann, compositor encarregue de criar a música para o filme de Martin Scorsese, usa esse mecanismo para gerar a sensação de isolamento no personagem Travis Bickle.
Martin Scorsese é também responsável por um dos exemplos em que o cinema esteve ao serviço da música, uma posição menos usual, quando filmou o concerto de despedida dos “The Band” no Winterland de San Francisco, dotando aquilo que deveria ser uma simples captação de imagens, de uma cenografia majestosa. Scorcese é um realizador que gosta de ver ligadas aos seus filmes, bandas sonoras originais, em “A última tentação de Cristo” por exemplo, solicitou-a a Peter Gabriel, músico com um percurso experimentalista, que foi também o responsável pela banda sonora do filme “Birdy”, para a qual criou especialmente algumas faixas, num exercício de composição musical que comporta uma relação face à atmosfera e ao espaço que se alicerça muito na sensação transmitida pela emoção (veja-se a faixa três: “Quiet and alone”).

Novas formas de compor surgem da parceria com o cinema. Por exemplo Meisel recorria à edição de imagens como base para o desenvolvimento da estrutura da sua música. Já Alan Silvestri, autor do filme “O Abismo” admite que o cinema veio alterar o regime de composição musical, acrescentando que quando se usa um meio se passa a ter atitudes próprias desse meio (Citado por Lima Barreto, in Música e Mass Média). Da mesma forma, no momento em que a gravação simultânea de som e imagem passa a ser possível e a ser utilizada por alguns realizadores, a realidade passa a poder ser captada de forma mais efectiva. Por exemplo Prokofiev para o filme “Lugar-Tenente Kije” usou música de uma taberna captada no local, conferindo à cena uma genuinidade inigualável. De igual forma Jean Luc Godard começa a gravar directamente com som no filme de 1961 “Uma mulher é uma mulher”. Para Godard o objecto sonoro é parte integrante da construção dramatúrgica. E a sua busca do real leva-o a fazer por norma, o som em directo não o decompondo à posteriori. Mas a qualidade não é privilégio da expressão da realidade, já que foram também criadas artificialmente bandas sonoras notáveis, nuns casos porque a tecnologia ainda não o permitia de outra forma, noutros por opção dos realizadores e dos compositores.

Veja-se o caso de os “Pássaros” de Hitchcock que utiliza sons simulados e de “Stalker” de Tarkovsky, para o qual o compositor Artemyev criou sons naturais a partir do seu sintetizador. A fronteira entre a música e os sons naturais esbateu-se e ambos passaram a interagir tornando-se indistintos. Mesmo depois de ter material filmado Tarkovsky não tinha formado a sua vontade quanto ao ambiente musical que pretendia para o seu filme, mas tinha uma ideia que pretendia ver expressa musicalmente: “Embora o Este e o Oeste possam coexistir não são capazes de se entender”. E aqui chegados, percebemos facilmente que música pode nascer de uma ideia. A utilização por Artemyev de um instrumento do Azerbeijão: o Tar veio dar a referência oriental à música do filme.
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Curiosamente Michel Fano quase contraria esta posição de que a música pode nascer de uma ideia, quando ao pedido do realizador Alain Robbe-Grillet, no filme “Glissements Progressifs du Plaisir” que lhe diz: “Quero um tema vermelho” reage dizendo: “nunca encontrei uma relação entre um som e uma cor”. Ora, sendo certo que cores e sons são capazes de nos dar por exemplo a sensação de temperatura, parece-nos difícil que a cor não possa relacionar-se com o som, ou que um não possa representar o outro, já que de certa forma ambos podem fazer parte de ideias. Mas teremos que entender legitimo o sentido de um compositor face a nós meros espectadores e ouvintes. Na verdade Michel Fano precisou de encontrar uma relação de substância. Clarificando a sua ideia ao dizer: “O liso, o enrugado, o líquido, o viscoso entre outras qualidades têm uma grande importância neste filme. Fundamentam a temática plástica da obra. E aí eu podia dar rosto às matérias musicais, onde o movimento, a evolução se pudessem ancorar de uma maneira ou de outra ao grão da imagem.” Acrescenta este compositor que a relação da música com a imagem não é da ordem do senso mas da ordem da substância. Mas voltando às cores, será imperdoável falar delas sem referir a trilogia “Azul, Vermelho e Branco” do realizador polaco Krzysztof Kieslowski com banda sonora a cargo do compositor Zbigniew Preisner (que chegou a colaborar com Teresa Salgueiro) e que constituem um marco na beleza do cinema europeu. Estes filmes têm a particularidade de começarem todos com um barulho, sendo o espectador conduzido posteriormente ao objecto que o produziu e que terá um papel determinante nos acontecimentos.

A função da música na sua relação com a imagem vem sendo discutida e objecto de diferentes apreciações. O realizador Eisenstein para quem Meisel compôs, entendia a música como o contraponto da imagem. Já James Newton Howard entendeu que a música tem que estar dentro do filme e não ser algo que vem por cima. Para ele a musica não é um mero embrulho ou cobertura, qual glacê num bolo. Diz-nos que as imagens podem ser música e a música tem movimento. No Filme “I’m the legend”, Howard apresenta um único tema que domina toda a banda sonora, aparecendo com vários arranjos diferentes, ora com piano, ora com cordas e coral, ora com toda a orquestra. Como que a provar que a musica, tal como a imagem, pode dizer a mesma coisa de imensas formas diferentes ou pode dizer coisas diferentes parecendo que diz a mesma. Podemos imprimir um determinado sentimento a um texto ou criar com ele uma atmosfera apenas alterando a forma como o dizemos, com a música passa-se o mesmo. Afinal ambas são linguagens. E no fundo esta é uma possibilidade comum a todas as formas de arte.

A interligação da música com a imagem gera muitas abordagens distintas, por exemplo “Blinkity Blank” recorre à cinegravura no cinema, criando uma legenda simbólica em que ao negro corresponde o silêncio e a parte visual, poética, sustenta a natureza do som. Já Godard em “Prenom: Carmen” gera o movimento musical, com sons de objectos quotidianos como sejam portas a fechar ou abrir, tiros de revolver, mas de uma forma abstracta. Em “Hiroshima, Meu Amor” a música de Giovanni Fusco é omnipresente apresentando um grau de importância idêntico ao dos outros componentes sonoros do filme. Diz-se até que se torna a terceira personagem do filme. Este filme tem ainda a particularidade de possuir longos momentos de silêncio, que constituem igualmente linguagem. Jean Luc Godard é outro realizador que tem em conta todos os elementos que fazem parte de uma banda sonora (vozes, ruídos, música) entendendo que deve existir uma dialéctica entre esta e a imagem, sendo ambas mutuamente remissivas. Esta importância do som está intimamente relacionada com a captação da expressão do real (Colecção Grandes Realizadores, Cahiers du Cinema).

Tarkovsky acreditava que a música distorce e muda o tom emocional de uma imagem, embora não lhe altere o significado. Este realizador buscava a consistência no cinema e no momento em que a conseguisse atingir a música já não teria lugar, sendo substituída apenas por sons. Esta posição purista nota-se em filmes como “Stalker” ou “Nostalgia” que tendem para este conceito.
Michel Fano faz uma observação interessante, ao dizer que todos concordamos que a nota musical Dó não significa uma cadeira ou uma árvore ou que a nota Ré não significa um cavalo ou um automóvel. Mas o modo Maior é expressão de felicidade e o modo Menor de tristeza. Este compositor refere-se ainda às convenções que regulam a percepção pelo ouvinte e espectador, por exemplo em questões de ritmo, os pressupostos que definem o ambiente fúnebre com um ritmo lento. Isto leva-nos a ponderar que tipo de abordagem sonora teríamos se rompêssemos tais convenções. Da mesma forma que podemos contar uma história em que a imagem mostra o oposto do que é narrado, também será interessante ver o resultado de uma oposição total entre a imagem e a música, não perdendo de vista a sensação de unidade. Será necessariamente uma tarefa complexa e desafiante.

Mas vejamos outras interacções entre a música e o cinema: Em “Tron” (de 1982) estabelece-se uma relação electrónica. E aqui teremos que referir obrigatoriamente Wendy Carlos (conhecida também pelas suas colaborações com Stanley Kubrick nomeadamente em Shining e em Clockwork Orange) que realizou investigações pioneiras com o sintetizador, transpondo música para o meio sintético. Em conjunto com Rachael Elkind, Wendy Carlos conseguiu converter sons como o discurso humano em sinais electrónicos que espelhavam os tons e ritmos do original. Criaram a primeira peça vocal electrónica. E fizeram-no numa altura em que os meios eram reduzidos. Na sua página Web Wendy admite que se espanta com a quantidade de música que conseguiram produzir com aparelhos e instrumentos recalcitrantes. E que não imagina voltar a esses tempos de limitações frustrantes.


Temos ainda aqueles compositores que encontraram um caminho próprio para dar alma e atmosfera às cenas de um filme é disso exemplo Michael Nyman, conhecido pelo seu estilo de repetições modulares e pelo seu minimalismo. Também ele um experimentalista, ficou conhecido pela sua colaboração com realizadores com Peter Greenaway e pela banda sonora do filme “O Piano” de 1992 de Jane Campion, chegando a estar nomeado na categoria de melhor banda sonora. Um outro caso será o de Yann Tiersen, músico capaz de dominar diversos instrumentos e com uma veia experimentalista. As suas bandas sonoras para os filmes “O fabuloso destino de Amélie Poulin” do realizador Jean-Pierre Jeunet (2001) e “Good Bye Lenin” do realizador Wolfgang Becker (2003), tornaram-no uma referência na composição de música para filmes e na criação de ambientes musicais.
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Também Brian Eno compôs para filmes, chegando a fazer um trabalho conceptual a que chamou “Music for Films” e que segundo fez saber seria uma banda sonora para filmes imaginários (que é algo maravilhoso, compor para possibilidades de filme, no fundo uma espécie de frequências de futuro cinematográficas). Em 1976 este “Music for Films” foi enviado a vários realizadores para possível inclusão nos respectivos trabalhos. Este músico veio a editar mais dois álbuns a que chamou “More Music for Films” e “Music for Films Vol. 3”.

Falando de música no cinema não poderíamos deixar de referir os filmes musicais e de Ópera Rock como sejam o “Jesus Christ Super Star” ou “Tommy” este último realizado por Ken Russel, baseado no álbum da banda “The Who”. Aqui é introduzida a Ópera Rock filmada. Peter Townsend refez especialmente para o filme alguns arranjos. Mais actual e um dos musicais mais marcantes da nossa época será porventura o “Moulin Rouge” de Baz Luhrmann, que usando canções da actualidade como El tango de Roxane e “Like a Virgin” ou “Material Girl” construiu a narrativa. Diz-se que este realizador reinventou o musical e que a paixão e o drama estão aí no seu expoente máximo. Baz Luhrmann criou inclusivamente o conceito que viria a ser conhecido pela “Red Curtain” cujos pressupostos são: O conhecimento pela audiência do fim da história logo no princípio; A simplicidade e curta extensão dessa história; O mundo criado no filme é uma realidade aumentada; E tem que existir um mecanismo que conduz a narrativa quer seja a dança, ou personagens que surgem de uma canção. De Baz Luhrmann diz-se ainda que veio apresentar Shakespeare às novas gerações, aproximando a as linguagens.
Ainda dentro dos musicais da actualidade e numa onda mais naturalista é de referir o filme “Once” de 2007 realizado por John Carney em que os músicos são os próprios actores, nomeadamente Glen Hansard e Markéta Irglova. A banda sonora, em especial a canção “Falling Slowly” tiveram grande êxito.


Mas o cinema não são apenas os filmes de Hollywood e aqueles que ganham prémios e circulam nos festivais europeus. Existem filmes, especialmente curtas- metragens, disponibilizadas gratuitamente pelos seus autores em comunidades virtuais como a Vimeo.com. E para estes criadores existem outros que lhes fornecem também de forma desinteressada, a música para os seus filmes. O que não quer dizer que a arte não deva ser remunerada. Deve e os seus autores merecem, e sempre que possível devem sê-lo. Porém, a capacidade criativa mantém-se independente e acima do grilhão comercial. Assim Kevin McLeod no seu site incompetech.com e o músico Moby em mobygratis.com são bons exemplos de compositores que disponibilizam a sua capacidade criativa em peças musicais que integram todos os dias novos projectos mais ou menos profissionais no meio audiovisual. Acrescentam algo, e a arte pela arte volta a ser uma realidade e a fazer sentido.
A cela parece de bronze, mas talvez não seja. Helena encontra-se desacordada e nua. O ambiente é frio e rapidamente se estende ao corpo. A pele reage arrepiando-se. Abre os olhos e senta-se. Olha à sua volta, a sua confusão é intensa. Levanta-se e procura abrir a porta, forçando a maçaneta com a ansiedade de quem se sente preso. A porta não cede. Impotente, Helena cerra os punhos e bate na madeira, com toda a força do seu desespero.
- Abram. Não posso ficar aqui. Não posso. Tenho de sair. Não compreendem. Tenho de sair.
Deixa-se escorregar pela porta até ao chão e chora deixando a cabeça esconder-se entre as mãos. Limpa as lágrimas. Repara na sua absoluta nudez e toca-se, como que em busca das roupas que não estão lá. Procura-as no espaço à sua volta sem as encontrar.
Levanta-se e olha-se no espelho que cobre parte da cela. Fica surpreendida com o que vê.
- Não sou muito velha. Mas não me lembro de ser nova. Não conheço estas rugas. Estas mãos. Nem estes olhos que são meus. Não me lembro de ser mulher. Que inútil é a minha memória. Estou ansiosa. É perigoso não saber quem somos. E o meu nome? É triste não saber dizê-lo.
Pára um pouco olhando o vazio.
- Há quanto tempo estarei aqui? Dias? Meses? Anos? Qual será a escala de grandeza? Não me lembro de ter chegado. Estarei morta? O meu coração bate. Sou matéria. Acho que não morri. Ainda… Mas se calhar… Arrendei uma sala no céu. É minimalista e não é lá muito confortável.
Sente frio. Passa as mãos pelos braços num gesto reflexo.
- Estarei no futuro? Ou terei vindo de lá? Lembro-me vagamente que os viajantes no tempo chegam sem roupa. Nos filmes, claro. O cinema é muito educativo.
Os músculos doem-lhe pela imobilidade imposta.
- Isto estará mesmo a acontecer? Posso ter nascido aqui. Claro que não. Tenho memórias que não cabem nesta cela. Paisagens. Pessoas. Não sei onde são, nem quem são. Mas existem.
Repara na sua cor de mel.
- Estou bronzeada. Ligeiramente. A não ser que algo simule o Sol, estou aqui há pouco tempo.
Este raciocínio anima-a um pouco.
- Há músicas na minha cabeça. Muitas. Invadem-me. Ajudam-me a suportar o silêncio. Engraçado. Dantes buscava-o como a algo precioso. Não aquele que é imposto e nos oprime. Mas o que nos traz paz e conforto. Haverá mais gente aqui? Talvez seja uma grande colmeia.
Levanta-se e cola o ouvido à parede. Tenta perceber se há gente noutra cela.
- Estarão a fazer ensaios? Serei uma cobaia numa experiencia científica? Telepatia? A mente é um lugar perigoso.
Pára uns segundos.
- Se calhar estou louca e este é o meu quarto. Esta hipótese é muito provável.
Esse pensamento sossega-a. Continha apesar de tudo alguma normalidade.
- Ainda bem que me estou a tratar. Nada faz sentido. Mas se estou internada, porque estou nua? Para não fugir? Não. A porta está trancada. Não há como fugir. Com roupa ou sem ela. E uma louca não se importaria de fugir nua. Tenho medo. Algo está errado.
O seu rosto mostra todo o receio do desconhecido. Vai dando passos atrás até que as suas costas chocam com a parede.
- Estarei presa? Matei alguém e fui condenada à morte. Perante a situação certa, todos somos capazes. Eu sei. Não. Não há pena de morte no meu país. Estou numa solitária.
Mas as solitárias não têm espelhos e são escuras. Estou a ficar nervosa. Apetece-me gritar.
Grita. Mas o som fica confinado à sua cela.
- O som da minha voz é estranho. Não o conheço. Terei sido expulsa? Do planeta? Do paraíso? Tenho um certo ar de Eva. É um facto. Mas não há maçãs aqui. Nem Adão.
Respira fundo.
- Se calhar sou apenas uma prostituta numa montra. Numa Amesterdão do futuro. Mas ninguém ia querer uma puta que não sabe que o é. Nestas coisas os homens têm expectativas e imagens preconcebidas. E estas só se confirmam com consciência da sexualidade que se vende. Há todo um imaginário sexual a preencher. Não. Falta-me o ar lânguido e a sedução profissional.
O sexo, essa linguagem poderosa, pensa.
- Há uma adrenalina que se liberta quando não temos que pensar em mais nada a não ser no prazer. Não existem compromissos nem responsabilidade. Queremos obrigar e ser obrigados. Não existe moral nem consciência. Queremos sentir a totalidade num momento.
Volta a olhar-se ao espelho.
- Este corpo é interessante. Quem me ouvisse, diria que me apossei de um corpo que não era o meu. Isso seria mórbido. E impossível. Estará alguém do outro lado?
Helena olha o espelho fixamente.
- Se está aí alguém, saibam que tenho fome. Isto quer dizer que estou mesmo viva. Necessidades carnais. Almoço? Apetecia-me bife com ovo a cavalo e um monte de batatas fritas. Anotaram? Algo me diz que o serviço de quartos não é refinado…
Ideias especulativas continuam a cruzar a sua mente.
- Estarei de quarentena? Doente? Não me sinto mal. Sei que vou acordar a qualquer momento. Deve ser um daqueles pesadelos do género “saio para a rua em pijama e estão todos a olhar”.
Começa a sentir todo impacto daquele lugar fechado e alguma claustrofobia.
- Acho que não sou deste tempo. Mas se calhar faz parte da loucura. Vivi em comunidade antes. Antes de quê? Afinal, qual foi o evento que me colocou nesta caixa?
Sente alguma dificuldade em respirar. Deve ser a ansiedade.
- E esta língua? É português certamente. Ninguém fala estrangeiro em aflição. Sinto-me portuguesa. Lembro-me de comer pastéis de nata, bolinhos de bacalhau e caracóis no Verão. Sou certamente portuguesa.
A sua expressão sonhadora altera-se subitamente.
- E Deus onde está? Não me lembro se acredito nele. Talvez para o caso não seja relevante.
Volta a sentar-se no chão. Embora sentindo o desconforto da superfície dura.
- Não há nada com que escrever. É uma violência.
Sente um vazio completo.
- E o amor? Tenho a sensação de ter amado. Amado muito. De sentir aquela felicidade plena que o amor traz quando é verdadeiro. A lembrança de beijos. O toque de alguém. Tento lembrar-me dele. Mas não consigo. Acho que fui casada. Terei filhos? Não. Ninguém se esquece dos filhos.
Encolhe-se um pouco. Sentindo-se perdida.
- Estou perdida. Sinto-o. Se não me lembro do amor, estou perdida. No fim é o amor que nos move. A força mais poderosa. Aquela que nos acorda. Que nos devolve a vida. Depois disso não há mais nada.
Fica triste com esta possibilidade amarga.
- Haverá guerra? Serei prisioneira? Talvez. O meu corpo não mostra sinais de ter havido violência. A minha mente continua a buscar respostas. Será mais fácil esperar que alguém venha explicar. E se não vier ninguém? Não quero morrer aqui.
Os seus pensamentos tornam-se cinzentos.
- O que haverá lá fora? Acho que daqui, só uma viagem astral. E isso exige uma mente forte.
Fica presa a esta ideia por alguns instantes. Depois, emoções vindas de outros pontos da alma empurram-na para memórias antigas.
- Tenho saudades do Sol. De ver o mar. Ainda haverá paisagem? Cidades? Estarei num bunker? Ou numa arca de Noé? Espécime: humano do sexo feminino. Proveniência: Terra. Será que diz mais alguma coisa na minha janela?
Pára um pouco em silêncio.
- Sinto-me só. Mas isso é o menos. Quero um vestido. Um vestido qualquer. Não, um vestido vermelho, já que estou a pedir. Devemos ser sempre detalhados nos pedidos, não vão eles ser satisfeitos.
Pensa quão absurdo é estar a pedir um vestido quando precisa mesmo é de uma chave.
- A roupa dá protecção. Se não fosse pela porta fechada, poderia estar num SPA naturista. De fraca qualidade, já que não há massagem e ninguém trouxe o almoço.
Tenho que sair daqui, pensa.
Levanta-se e volta experimentar a porta, que permanece fechada.
- Será um jogo? Um mundo virtual? O virtual está cada vez mais real e vice-versa. Estes gráficos são cinco estrelas… O gajo que desenhou isto é bom. Qual será a tecla para sair daqui? Se calhar sou apenas um peão num jogo e está um tipo em Taiwan a apostar quanto tempo me aguento aqui, dizendo que estas ocidentais não são nada de especial. É possível.
Fica imóvel.
- Quero a minha mãe. Não é o que dizemos quando estamos perdidos?
Fecha os olhos e volta a abri-los pouco depois.
- Tenho medo de adormecer e já não existir mais. O tempo é esquisito nesta cela de Bronze. Podiam ter colado uma paisagem para enganar os olhos e fazer sonhar. Se o coração não sente o que os olhos não vêem, os meus sentimentos estão limitados. Aqui não posso ver nada. Ou posso? Ver de dentro para fora.
Deixou-se ficar embalada pelas imagens que a sua mente criava.
- Sou uma sereia que acabou de transformar-se em humana. Já não tenho cauda de peixe. E ainda não tenho roupa. Também não tenho príncipe. Porque será que o príncipe nos parece sempre, parte importante na equação da felicidade? Sempre achei dramática a história da pequena sereia. Gosto de Príncipes insólitos. Será que me aparece um a pedir que lhe desenhe uma ovelha? Não sei desenhar. Na verdade não sei o que sei fazer. O que seria eu? Enfermeira? Professora? Bombeira?
Branca total.
- Se pudesse escolher o que seria? Empregada de bar de praia num dia de Sol. Servia daikiris a estrangeiros com insolações e pronúncias estranhas. O ar cheiraria a sal e a óleo de coco. Ou talvez não.
Com a boca embacia o espelho, e começa a escrever nomes de mulher.
- Afinal é possível escrever. Graças à mãe de todas as invenções. Ana, Isabel, Ângela, Dora, Maria. É escusado. Não me lembro. Seja Maria. Um nome bom para qualquer mulher. Neste caso seria filha de Deus.
Apaga todos os nomes.
- Podia escrever o meu diário no espelho. Mas seria efémero. Nesta cela nada fica. Nada perdura. A não ser eu, mais um pouco. A quantidade de coisas inúteis que eu me lembro… A receita de scoones. As paragens da linha de Sintra. A marca do café que bebia. O tempo de cozedura do esparguete. A hora de disparo da rega automática. A cor do verniz… Tudo inútil. Completamente. Começo a aborrecer-me. Talvez seja bom sinal. Quer dizer que o medo me abandona. A pouco e pouco.
O seu rosto vai mostrando todas estas sensações, em expressões sucessivas.
- Não há nada para fazer. Nem livros para ler. Nem filmes para ver. Nem jogos. Devia fazer ginástica. Não é o que os presos costumam fazer para manter o físico e a sanidade? Pilates. Mas aí arrisco-me a viver até aos 100 anos. Tempo de mais para estar numa caixa. Caixas, bonecas… Serei uma boneca? Uma réplica? O modelo não é mau… Um bocadinho limitado no software. Introduziram poucas memórias. Lembro-me do Blade Runner. “Is it artificial”? Esta frase ficou-me. Por falar em artificial… As roupas serão holografias? Por alguma razão não consigo vê-las. Talvez tenha um vestido do Tenente. Mas não sei se ele já entrou no mercado virtual.
Anda movendo-se como se estivesse numa passarela. Roda sobre si, ajeitando um vestido imaginário.
- Quando era pequena tinha uma saia de um tecido que fazia barulho quando eu me mexia. Era uma coisa subtil. Como o vento nas searas. Adorava-a. Era como se estivesse viva e me completasse.
Tudo poderá acontecer, pensa. E esta sensação de possibilidades infinitas devolveu-lhe alguma confiança.
- Quero sair daqui. Ir beber um café.
Privação de liberdade. Não era a primeira vez que lhe acontecia.
- Os homens não são árvores. Não é o que dizem? A imobilidade não faz parte da sua natureza. Estar aqui não é natural. Se calhar preciso de palavras mágicas para abrir a porta. Abre-te Sésamo. Se não sei o meu nome, muito menos sei a palavra passe. Lá terei que alterar a constituição molecular da porta. Muito mais fácil. Mas só tenho veia de alquimista na cozinha. Acho que sou especialista em criar comida deliciosa. Talvez tenha sido cozinheira… Gosto de fazer entradas. Ameixas secas com calda de vinho do porto e recheio de foisgras. Empadinhas de delícias do mar com três pimentos e natas. Pedaços de frango frito com sésamos e doce de manga. Espetadas de queijo feta com morango. O que eu não dava para provar essas delícias agora.
Apalpa as paredes da cela, como que à espera que um qualquer mecanismo as faça mover.
- Uma das minhas características é a persistência. Não me lembro de muitas coisas, mas lembro-me disso. De não desistir. De não desistir nunca. Persistência e teimosia, serão a mesma coisa? Qualidades? Defeitos? Tudo muito relativo. E isso é bom. A relatividade. Mesmo sem nada de Einstein.
Deita-se e ergue as pernas, fixando-as na parede.
- E a fé? Se calhar é só isso que me falta. A tal, capaz de mudar a paisagem. Quem move montanhas abre portas. E se a porta fosse fácil de abrir não era preciso ter fé. Acreditar que o impossível é possível. Saber intimamente que apesar da solução não se vislumbrar no imediato, ela vai aparecer. Porque está lá. Vai materializar-se. No momento em que não houver dúvidas. Mas tudo isto é tão frágil. Como a bolsa de valores. Costumava gostar de coisas frágeis. Achava-as belas. Mas agora…
A porta continua fechada.
- Sei que a porta vai abrir-se. Não tenho que me preocupar como isso vai acontecer. Pois essa preocupação impede a abertura. Vou apenas imaginar-me a abri-la. E esperar que no momento em que lhe toque, a maçaneta rode. Só aqui estou eu. Ninguém vai interferir naquilo em que eu acredito. Ninguém dirá que tudo isto é estupidez. Um delírio. A porta vai simplesmente abrir-se. Acreditar é algo extraordinário. Funciona sempre. Afinal vou mesmo beber o tal café. E esta certeza sinto-a no ar que respiro.
Helena levanta-se, aproxima-se da maçaneta, roda-a abrindo a porta.
Uma voz no intercomunicador informa-a de que superou a experiencia da confiança.
- Parabéns. A sua confiança foi restaurada. Tem lugar na nossa missão. Os testes físicos começam em 48 horas e dentro de 10 todas as suas memórias estarão repostas. Dirija-se à sala de recobro. Lá encontrará as suas roupas. Siga a linha vermelha. Boa Sorte.
Eduarda decidiu ir ver o lago da casa senhorial. Não que adiantasse grande coisa. Mas daria mais veracidade às imagens que a sua mente produzira, de acordo com o relato de Amélia. Parou o carro junto ao portão que se encontrava fechado. Tocou a campainha e uma voz masculina perguntou-lhe o que pretendia. Mas não era fácil explicar. Hesitou.
- O meu nome é Eduarda. Sou fotógrafa e estou a fazer um trabalho sobre lagos. Acha que seria possível fotografar o seu?
O portão abriu-se automaticamente. Era evidente que a casa já não estava abandonada. Os jardins estavam cuidados e o caminho até à porta bem delimitado. O homem esperava-a nos degraus da entrada.
- Deixe-me vestir o casaco. Eu acompanho-a.
Foi mais fácil do que imaginara. Ele não quis saber nada sobre o seu trabalho. Não impôs quaisquer condições. Não perguntou qual o uso que seria dado às fotos, nem se o seu nome seria mencionado, ou se a casa seria identificada.
O lago era um círculo. Por isso perfeito. O raio teria uns doze ou treze metros. A circunferência de pedra que o continha, estava gravada com inscrições e desenhos relativos às estações do ano. Num ponto, tinha uma rosa-dos-ventos e no outro um relógio de Sol. Num terceiro ponto, estava uma estátua de mulher, que sentada, olhava o fundo da água. Os três, formavam um triângulo equilátero invisível. Embora apresentasse ainda uma cor esverdeada, notava-se que tinha sido limpo recentemente.
- Foi o meu bisavô que o construiu. É de uma beleza enorme, não é?
Eduarda assentiu com a cabeça.
- Acabei de o recuperar.
- Fez um trabalho notável.
Conseguia imaginar Clara a percorrer a borda do lago, com os pés nus.
- É muito mais fundo do que parece. É como uma piscina, pode nadar-se lá dentro.
- Acredito.
- E há muito tempo atrás, tinha ninfas.
Eduarda riu-se.
- Quando eu era criança, gostava de vir aqui. Talvez porque fosse proibido vir.
- Para uma criança seria perigoso.
- Sim, mas sabe como são os miúdos. Não têm noção do perigo.
- Alguns adultos também não.
- Pois. Se calhar, nunca chegam a crescer verdadeiramente.
- Síndroma Peter Pan.
- Há lugares que só se mostram, quando temos um certo grau de ingenuidade.
Eduarda achou que a conversa do homem era vagamente mística. Aliás, parecia que ela atraía esse género de pessoas e de conversas. Seria uma coincidência?
Tirou algumas fotografias. O lago era um motivo terrivelmente belo. As imagens sucediam-se em pequenos clics.
Fizeram o caminho de volta em silêncio.
- Quer entrar?
- Não vou incomoda-lo mais.
- Venha, vamos comer bolo de amora. É uma experiencia. Uma receita que acabei de criar. Sou Chef no Étoile.
- Nunca lá fui.
- Se não estivesse de serviço hoje, eu mesmo a acompanhava.
- Vejo que é afável com estranhos.
- Com estranhas.
Ao colocar o primeiro pedaço de bolo na boca, sentiu um travo de gengibre misturado com os frutos silvestres. A combinação era peculiar mas agradou-lhe.
- E então qual é o veredicto?
- Delicioso.
- É a primeira a prova-lo.
- Um privilégio, para uma mulher estranha.
- Quanto mais estranha melhor.
- Agora tenho mesmo que ir. Mais uma vez, muito obrigada pela sua disponibilidade.
- Foi um prazer. Espero que o meu bolo não tenha o mesmo efeito nos clientes, e não debandem todos.
Ela sorriu, num pedido de desculpa silencioso. Na verdade não tinha pressa, ninguém a esperava e não havia nenhum compromisso. Mas algo a levara a dizer aquilo. Algo que não sabia explicar.
Era um daqueles dias em que lhe apetecia vaguear. Foi até ao parque e sentou-se no único banco com sombra. Tirou da mala a tese do pintor. Queria devolver-lha, por isso devia lê-la quanto antes. Foi passando as folhas devagar. A arte passou a prescindir da beleza, leu. Imiscuiu-se no quotidiano, dando forma a objectos que usamos, pelo que, conceitos como funcionalidade e conforto substituíram muitas vezes a beleza enquanto necessidade humana. Talvez beleza já não signifique a mesma coisa. Conceptualmente tornou-se mais abrangente. Hoje, impera a diversidade, e por isso, há lugar para todas as visões do belo. No entanto, será fácil entender, porque para muitos, perfeição e beleza coincidem. Há algo quase sagrado nas coisas perfeitas, que as torna, de certa forma, divinas. O que faz de algo perfeito? A ausência de defeitos, ou mais do que isso? Há beleza na imperfeição? Definitivamente. Eduarda concordava com o Pintor, havia um admirável mundo, em tudo o que não era perfeito. Talvez fosse o toque das coisas singulares. Uma mistura de arte com humanidade que será sempre irresistível. A fealdade é também um elemento estético incontornável. A mistura sábia do feio com o belo, da realidade com o imaginário, sempre poderosas. As paisagens, que têm que ser mais do que paisagens e os retratos, mais do que pessoas que afinal não estão ali. A emoção deve trespassar a arte. Antigamente, fazia-o quase sempre. Algumas obras modernas contêm frieza a mais, gerando a consequente indiferença do público. Por vezes, a busca da originalidade, de algo que distinga, é um caminho que conduz à aridez. A capacidade que um artista tem, de mostrar na sua pintura, movimento, quietude, força, fragilidade, tensão ou outro qualquer conceito, e de o tornar quase real para o observador, seja na forma figurativa seja na forma abstracta, será sempre sinónimo de qualidade, e muitas vezes de beleza. A possibilidade de uma obra alterar o estado de espírito do observador e gerar emoções, contém o verdadeiro sentido artístico. Quem entende, que a obra de arte não tem que gerar reacções em quem a percepciona, está a negar a qualidade comunicadora que a arte possui. É um facto, que não é necessário que o autor considere essa reacção ao produzir a pintura, a escultura ou a música, não sendo sequer necessário que as crie para esse efeito. Porém, independentemente do sentimento, da motivação ou da visão criadora, a fruição da obra é um momento importante que contém também sensibilidade. E se não existem, no caso da pintura por exemplo, quaisquer estímulos pictóricos capazes de promover no observador uma emoção ou uma sensação, seja positiva ou negativa, estaremos perante uma apatia artística. A ausência de genuinidade, é sinónimo de falta de qualidade. Com excepção dos casos em que a própria falsidade é um componente artístico, a arte deve ser verdadeira. E o que é a verdade? Será uma exposição da alma artística. Será de alguma forma, podermos ver o avesso do criador. Às vezes num detalhe, ver a emanação do seu sentir. É a certeza, de se estar a percepcionar algo especial, criado com o lado mágico que há em nós.
Enquanto lia, tocaram campainhas na sua mente: E se a referência que o homem fizera às ninfas fosse real? Ou melhor, se as ninfas não fossem uma mera alusão mitológica? Jovens e belas mulheres ao Sol. Talvez estivesse a falar de Clara e Amélia, que costumavam frequentar a sua propriedade. Era um detalhe a esclarecer ou um pretexto para voltar?
Voltou a pousar os olhos no caderno e começou a ler sobre a premonição, ou a arte de prever acontecimentos e situações e a sua expressão na arte. Por outras palavras, a arte premonitória. O revelar do futuro, pode ser mais ou menos evidente, por vezes apenas existem na obra, indícios. Um indício será uma insinuação, uma alusão que fornece pistas mas não desvenda completamente o evento. A premonição pode apresentar a forma de ícone e utilizar linguagem simbólica. É frequente que a obra premonitória contenha índice (facto que é logo entendido e dá ao observador o conhecimento de outro que não é perceptível), ícone e símbolo. A criação de uma obra premonitória implica uma poderosa intuição e uma correspondente capacidade de visualização. Não esqueçamos que, como referia Sartre, as imagens são formas de consciência de um objecto. E que aquilo que é imaginado, tem frequentemente, uma correlação com as experiencias vividas. A arte premonitória é também um meio de exteriorizar pensamentos que obcecam, perturbam e atormentam o indivíduo. Constituem uma forma de lidar com essa invasão do seu espírito por imagens de um futuro ainda por preencher. Algumas dessas imagens pertencem a vidas passadas e são situações que irão repetir-se nesta vida, ainda que em contextos diferentes, significando que o tema não foi ainda resolvido pelo sujeito. Há quem pinte a mesma casa indefinidamente, sem que a tenha ainda visto, ou sempre a mesma pessoa, sem que a tenha ainda conhecido.
Então, o pintor acreditava na vida depois da morte. Já era mais ou menos expectável. Eduarda fez uma pausa. Sentia-se observada. Era certamente impressão sua. Embora a sensação fosse cada vez mais forte, não vislumbrava ninguém ali perto. Continuou a leitura, uma brisa ligeira afagava-lhe os cabelos. Seria uma referência quase subliminar, mas Eduarda percebeu que algumas dessas pinturas premonitórias referidas eram as do próprio autor. E se toda a sua obra representava de uma ou outra forma, a Clara, então essas premonições, teriam forçosamente que lhe dizer respeito ou estar com ela relacionadas. Seriam premonições da morte? Ou outras quaisquer?
Anotou o nome das telas, para as analisar mais tarde: “O mistério de Clara”, “Inverno” e “Acordar”. A tese poderia ajudar, na percepção da abertura da caixa fechada. A tal, que continha os símbolos. O sol estava a sumir-se e ficou desagradável. Guardou o caderno e olhou em volta. Era estranho. Mas a ideia de que alguém a olhava de um qualquer ponto voltou a insinuar-se na sua mente. Apressou o passo, e uma vez dentro do carro, sentiu-se mais segura.
Arrastava devagar uma mochila com rodas. Viu-a ao longe. Devia ter fugido mas não foi capaz. Ela fixou nele o olhar, com toda a força de quem quer ter a certeza do que vê. Não estava preparado para a encontrar. Algumas voltas da vida não são fáceis de explicar. Ela aproximou-se.
- Lucas.
Ele ficou calado a vê-la resplandecente e perfumada como um dia de Primavera. A lembrança de um tempo em que pertenciam um ao outro inundou-o. E doeu. Há dias em que quase tudo pode ser dito. Mas este não era um deles. Começou a cair uma chuva grossa. Eles não se mexeram. A água fria molhava-lhes a roupa e chegava ao corpo. O tempo corria, apesar do momento parecer eterno. Como um parêntesis. Ela não lhe fez as perguntas naturais e óbvias. O tacto tinha sido sempre uma das suas melhores qualidades. E não o perdera.
- Queres vir tomar um café?
Ouviu-a dizer em voz baixa.
- Não sei se me deixam entrar.
- Espera aqui.
Ela voltou com dois cafés em copos pequenos de plástico e estendeu-lhe um, sentando-se no passeio, na berma da estrada.
- Não te sentas?
Ele ficou calado, mas sentou-se junto dela. Sentiu um conforto inesperado enquanto bebia o café.
- Vamos mudar de roupa. Moro aqui ao pé, anda.
- Não posso.
- Claro que podes.
Não queria explicar-lhe nada. A sua situação, os seus sentimentos.
Ela percebeu.
- Não te vou fazer perguntas. Podes vir.
Ele cedeu. Colocou a mochila às costas e seguiu-a. Mas no momento em que ela abriu a porta de casa, apeteceu-lhe fugir. Fugir mesmo. Para sempre. Porém, não se mexeu. A sala inundada pelo Sol tinha uma decoração agradável e minimalista. Havia livros e revistas espalhados. O tapete era macio. Reparou que lho estava a molhar.
- Não te preocupes. Podes ir tomar banho. Tens aqui toalhas e roupa que te deve servir. Talvez até seja tua.
Ele entrou na casa de banho como quem entra num local protegido. Teve a sensação de que não ia conseguir sair dali. Entrou na banheira e ficou a sentir a água quente lavar-lhe meses de rua. Era como se estivesse a apagar da vida as partes que não queria. O vapor encheu o espaço, fazendo desaparecer pedaços da realidade.
- E agora?
Tentou não pensar em nada. Ouviu a música de Yann Tiersan que ela colocou. E a sua mente reagiu àquele som numa torrente de imagens que não conseguiu parar. Sentiu as lágrimas misturarem-se com a água do chuveiro e toda a sua fragilidade escorrer pela face e desaparecer na banheira. Confiava nela. Claro que confiava. Mas não lhe podia dizer nada. O problema dos grandes amores é que se agarram à alma, e mesmo quando acabam fica lá sempre qualquer coisa. E ele tinha-se esforçado tanto para apagar tudo. Saiu do banho quando percebeu a pele engelhada. Vestiu-se devagar, fez a barba e viu aparecer no espelho, que desembaciou com a toalha, um homem diferente do que se lembrava. Quando saiu, ela tinha-lhe preparado o jantar. A noite tinha chegado, sem que tivesse dado conta. Não lhe disse nada. Ela sorriu e serviu-lhe um bife com molho Tzatziki, a melhor invenção grega depois da Filosofia. Mais recordações.
- Não é tártaro. Mas está mal passado q.b., como tu gostas.
Retermos as preferências de alguém, mesmo passados anos de afastamento, fora sempre algo que o maravilhara.
- Obrigado.
O vinho era suave e aveludado e sabia a fruta. Há tanto tempo que não bebia um tão bom. Há tanto tempo que não bebia aquele em particular. Ela sorriu-lhe. Tinha-o guardado para o dia em que o encontrasse. Era como se ter aquela garrafa significasse a certeza de que ele ia aparecer, mais dia, menos dia.
- Ainda está bom não está?
- Está óptimo.
Podia ter escolhido uma reserva, mas aquele era o vinho deles, e não outro. Por isso, apenas esperava que tivesse mantido todas as suas características como o amor que lhe tinha.
Aquela era mais do que uma ocasião especial. Tinha-o procurado por todo lado sem descanso, sem nunca desistir, mas cada vez mais sem esperança, até se convencer que só o ia encontrar quando ele quisesse. E de repente, sem que o esperasse, a vida devolveu-lho. Não quis dizer nada que o fizesse fugir. Corria o risco de não o ver nunca mais. Era preferível falar de frivolidades até que o cansaço o vencesse e ele dormisse. Estava tão feliz por tê-lo ali. Ela esforçou-se por manter os olhos abertos, mas acabou por adormecer. Quando acordou, naquela manhã fria, ele já não estava lá. Deixara um bilhete que dizia apenas: “Obrigado”. Nada mais. Mas no seu intimo sabia que desta vez não o perdera. Percebera ontem no seu olhar os laços a reforçarem-se. Tinha a certeza de que ele ia voltar.
Etapa Fisterra-Múxia
Dormimos mais ainda… Mas o dia estava encoberto, pelo que o calor não seria um problema. Fomos tomar o pequeno-almoço perto do cais. Encontramos os “amigos” do albergue de Negreira em amena conversa na esplanada de um café na descida. Estavam todos de partida. Para muitas pessoas Fisterra, é o fim da etapa. Lá tomamos o nosso café com leite, torradas e sumo de laranja numa calma talvez inventada, já que tudo à volta se movimentava em bulício matinal. Fisterra tem essa característica, pelos vistos a qualquer hora. Um estrangeiro, não me lembro de onde, explicou-nos onde começava a saída para Muxía. Agradecemos e lá fomos. Passou por nós o autocarro dos amigos que partiam. As setas amarelas voltaram a guiar-nos dando uma sensação de segurança. Estar no caminho certo dá uma certa tranquilidade. Passamos por um “nativo” que com um ar bem-disposto, nos diz: “Madrugastes non?”. Desatamos a rir… Pois tinha razão o homem. Não era hora para começar a caminhar. Mas enfim. Era a última etapa.
A serra alternava com casarios rurais. Pelo caminho encontramos uns padres que teriam uns oitenta anos. Pelo menos um deles teria. O outro teria setentas e um porte atlético invejável. Cumprimentaram-nos afáveis. O dia continuava encoberto. Numa subida complicada apareceram ciclistas de Portugal que nos falaram em espanhol até lhes respondermos na sua língua.
Mais à frente avistamos a rapariga do chapéu. Vinha em sentido contrário. De Muxía. Se estava ali àquela hora deve ter saído de lá cedo… Pensamos. Não parou. Seguiu no seu ritmo veloz. A determinada altura viu-se o mar ao longe, mas o caminho invertia para dentro, afastando-se. Ora bolas.
E já me fazia falta um café. Mas nada. Ao longe vemos vir um grupo. Entre os rapazes estava o húngaro que segundo a minha amiga não gostava de banhos. Tínhamo-lo encontrado em Negreira. Lembro-me de o ouvir filosofar sobre a experiencia do caminho com uma miúda sueca. Cumprimentamo-lo e perguntamos-lhe pelo café… Fica a uns cinco quilómetros. Até lá não há mais nada. O facto de ele nos ter referido a existência do café teve um efeito motivador, mesmo estando longe. Mas depois o raio do café nunca mais aparecia. Os cinco quilómetros do húngaro deviam ser esticados. A paisagem era bela. Fazia-me lembrar a zona dos meus avós perto de Monção. Os lugares (pequenos casarios) eram bucólicos e parecia que estávamos dentro de um parêntesis face à realidade.
Voltamos a ver os padres. A certa altura apareceu a indicação do café a uns metros… Ufff Lá nos sentámos. E os padres também, numa outra mesa. Comi uma das melhores canjas de galinha da minha vida. O magnífico destas experiências é o facto de as coisas normais nos saberem a excepcionais. Se é que me percebem. A terrina veio para a mesa e tudo. Comemos um quase não acabar de sopa. Até a alma ficou mais quente. Ficamos algum tempo ali. Os padres, que também tinham experimentado a canja, foram embora. E nós achamos que era melhor fazer o mesmo. Continuamos num registo rural de tipo montanha. No meio do nada estava uma casa de pedra em ruínas, com uma tabuleta que dizia vende-se. Encetamos uma conversa sobre a possibilidade de viver num sítio assim, solitário. Bem sempre há os peregrinos e outros caminheiros. Um albergue ficava bem ali. Os gatos pareciam gostar.
Mais à frente um pelourinho mostrava que aquele sítio tivera já outra história.
Entretanto o sol aparecera e queimava agora com a violência do costume. O calor aumentara consideravelmente. Mergulhei as mãos na água mais fria da minha vida. Um frio natural, de montanha, numa fonte com a mesma idade do pelourinho. E apeteceu-me ficar ali a sentir aquela frescura. Mais à frente a água voltava a escorrer montanha a baixo. Não resisti tirei as botas e mergulhei os pés. Era algo que me imaginei a fazer diversas vezes ao longo do caminho. A ponto de ter idealizado uma esplanada onde corresse água através de canais que se cruzassem (como os árabes que ligam as fontes umas às outras) de forma a que quando estivéssemos sentados na mesa os pés estivessem mergulhados em água. A loucura tem destas coisas. Decidimos ficar um pouco ali na sombra de uma árvore, quase no meio daquela estrada deserta. Pareceu-me o local ideal para iniciar a Teresa no contacto com o Eu superior, numa viagem que acabou mesmo a tempo de ver surgir os padres no caminho. Achei melhor voltar a calçar-me… Voltamos ao caminho algum tempo depois de eles terem passado. Na parte seguinte a vegetação tornou-se mais rasteira e começou a aparecer mais areia numa indicação clara de que nos voltávamos a aproximar-nos da costa.
Voltamos a encontrar os padres na fonte seguinte. Eles bebiam despreocupados. E eu apesar de não saber se a água era própria para consumo, bebi também. Se os padres arriscavam… Está bem que Deus ajuda. A água devia vir da montanha. E o sabor combinava com o aspecto cristalino. Continuamos. Agora a descer. E descer também faz doer os músculos. Como sempre avistar a praia foi um momento bom. Uma praia com verde à volta.
Ali as hortas estavam lado a lado com o mar. As couves deviam ser salgadas…. Ou não. Não percebo nada da horta.
O tempo voltara a encobrir. Múxia parecia uma cidade do Norte da Europa. Ou pelo menos daquilo que eu imaginava que pudesse ser uma cidade do Norte da Europa. O albergue municipal ficava mais uma vez no cú de Judas. E tinha que se subir bastante para lá chegar. Estava obviamente “completo”. Deram-nos indicação de um hotel barato. Lá fomos. Nós e os padres que eram alemães.
O homem do hotel mesmo quando estava a fazer o favor de nos fazer um preço especial para peregrino parecia que nos ia bater a qualquer momento. Era brusco nos gestos mas percebia-se-lhe uma certa bondade interior… O hotel tinha umas instalações antigas mas ficava em frente ao mar.
Aquela terra era melancólica. Talvez o facto de a estar a ver sem sol precipitasse essa conclusão. Apetecia-me comida italiana. Com muitas calorias. Mas não havia um único restaurante italiano, nem de outro país.
No dia seguinte fomos ao santuário. É um local muito marcante. A força do mar é brutal. Há uma ligação entre o homem e a natureza que se respira. Gosto destes sítios capazes de provocar catarses emocionais.
Pensei que só por aquele momento tinha valido a pena ir a Muxía.
Depois fomos buscar a nossa “Muxiana”, um pedaço de papel que diz que completamos o caminho Fisterra-Muxía.
Tivemos tempo para ver a exposição fotográfica sobre o derrame do Prestige. De facto impressionante.
Na camioneta que nos levou de volta a Santiago de Compostela lia-se o seguinte aviso: Proibido comer e tirar as botas!
Tudo começou com uma profecia. A mais estranha de todas.
Um fascínio imenso sobre tudo aquilo que pudesse revelar o futuro guiou os seus passos. Inúmeras coincidências revelaram o que até aí permanecera escondido, como um segredo. Há sempre dois tipos de segredos... Aqueles que nunca se sabem e os que se vão sussurando baixinho, passando de pessoa em pessoa, como uma corrente invisível. Até deixarem de o ser.
Nascera numa família de cépticos e de ateus. Mas era demasiado cansativo não acreditar em nada. A Isaura abrira-lhe as portas do “mundo esotérico” quando a ensinou a ver o futuro no fundo de uma chávena de café. Eduarda olhava para os desenhos que as borras deixavam depois do líquido escuro e aromático ter sido bebido e sua imaginação galopava. Não sabia ao certo se o que via pertencia à realidade ou à ficção, mas sabia que era algo forte. Conseguia sentir os cheiros e até os sabores. Era estranho, intenso e delicioso. Parecia o efeito de uma poção mágica. Quando era mais nova, estava convencida que o café era mesmo uma bebida mágica. No início o pai julgou que a Isaura pussesse algo no café que causasse alucinações. E teimava em provar daquela chavena. Mas o efeito era nulo. Talvez fosse preciso acreditar e ter a alma em branco. O pai, temendo que ela se transformasse numa pequena bruxa, mandou embora a Isaura quando Eduarda tinha treze anos. Mas isso não mudaria o rumo dos acontecimentos. Para ele, era apenas uma forma de evitar que o passado se repetisse. Havia coisas que ele sabia e queria a todo o custo esconder. Na altura, ela não se apercebeu que pai agira por medo. Hoje tinha a certeza que fora por isso e tinha pena dele. Como é sabido, a proibição atrai quase sempre a vontade de realizar a conduta proíbida. É uma característica humana.
Chorou com a partida da Isaura. Ela olhou-a com ternura e disse-lhe numa voz doce: - A menina não se preocupe, não faz mal nenhum, vou estar sempre consigo, lembre-se de mim sempre que beber um café. Tem um dom. Não o desperdice e acima de tudo não tenha medo dele. Mas cuidado, seja sempre prudente e humilde ao usá-lo.
A Isaura foi embora e com ela os cheiros da cozinha, os biscoitos de canela, as infusões no Inverno, as limonadas no Verão, com aquele leve travo a hortelã... Até o jardim se ressentiu, tornou-se um emaranhado de plantas que parecia indomável. E Eduarda estava sem coragem para o desbravar. Não se achava à altura de tal tarefa. Ou talvez no seu íntimo, aquele caos, aquele toque de abandono, de sítio selvagem e de mistério a atraísse. Isso foi algo que demorou a admitir. Sentia-se protegida naquele jardim que já não era jardim mas uma camuflagem. Era como se ela pertencesse ali àquele lugar antigo, e aquelas plantas bravias a guardassem. Por isso, foi com grande angústia que viu numa manhã de Primavera, chegar uma equipa de jardineiros, que foi podando e arrancando, limpando e arranjando, até aquele lugar mágico se transformar numa paisagem certinha e bem cuidada, onde as plantas se encontravam ordenadas por cores, como numa pintura. Também era um jardim, mas não era como o da Isaura, mesmo nos tempos em que ela o cuidava com devoção. Foi um choque para si. Sentiu-se como um bicho quando o seu habitat fica comprometido. Ainda implorou ao pai para que parasse aquela invasão. Mas como no caso da Isaura, as suas preces não foram atendidas. E entre Eduarda e o pai foi crescendo um muro, que os mantinha em realidades separadas.
A avaliar pelo quadro que se encontrava por cima da lareira, ela estava a tornar-se cada vez mais igual à mãe e isso parecia perturbar o pai, sem que conseguisse perceber se era por ama-la e lhe sentir a falta, ou se pelo contrário, era por odiá-la e não suportar a sua imagem a deambular pela casa. A sua mãe era um mistério. Não se falava dela, as suas coisas tinham sido cirurgicamente removidas lá de casa e a única coisa que permanecia no seu lugar era o tal quadro que tinha sido pintado por um artista local. Embora ninguém o pronunciasse, o nome dela estava sempre presente e muitas vezes dava por si a repeti-lo baixinho... Clara, Clara, como se a estivesse a chamar. Detestava aquele vazio na sua vida. Precisava de saber mais sobre ela, sob pena de parte de si definhar. Tornou-se uma obsessão. Às vezes achava que mãe era ela e vice-versa. Teria o pai percebido, tudo o que se estava a passar? À primeira vista parecia ignorar. Limitava-se a dizer:
– Bom dia Maria Eduarda, Adeus Maria Eduarda.
Sem mais.
ETAPA OLIVEIROA - FISTERRA
Desta vez ficamos a dormir um pouco mais. Talvez o conforto da cama a isso incitasse. O café / restaurante onde ficava o albergue particular (o tal em forma de contentor) só abria às 8 horas. E pareceu-nos bem… Não fomos as únicas. Ao pequeno-almoço encontramos uma italiana que tinha alugado uma tenda no albergue (sim leram bem, tendas de aluguer), lembro-me vagamente de a ver a dormir no saco cama do outro lado da mesa no dia em que dormíramos no albergue de Negreira. Era simpática e bonita. A filosofia do seu grupo era aproveitar o dia até ao fim, noite dentro. Pelo que chegar primeiro não fazia parte dos seus objectivos. E bem vistas as coisas, oito horas para ela até era cedo. Estava também outro francês, o Jean Louis, ficou na nossa camarata, mas era alguém tão discreto que não tinha dado por ele senão naquele momento. Comemos umas torradas com leite, o tal café indispensável e lá fomos de mochila às costas. Entretanto passamos aquele que deveria ter sido o nosso destino no dia anterior. E fomos espreitar só para ver como era o albergue municipal. Logo na curva estava um mural enorme em que as cores vibravam.
Achei curioso ver uma peça de arte num meio completamente rural. Fazia um certo contraste interessante.
Entretanto passaram por nós peregrinos a cavalo. Eram espanhóis. “Buenos dias chicas”. Ficamos a pensar que aqueles teriam que fazer estadias alternativas em sítios aptos a receber os bichos.
Fomos andando até se nos deparar uma tabuleta que indicava que aquele era o último café nos próximos 15 quilómetros. Achamos prudente parar para comprar água (cujo preço vinha aumentando…) Mas enfim a localização é tudo… E aproveitamos para beber um belo sumo de laranja para repor algumas vitaminas e pelo super sabor que o dito tem quando está bem fresco.
Aí conhecemos um velhote impagável. Fantástico. Era de Fisterra. Lá nos informou que era pescador e tinha vindo do mar e ainda não tinha ido à cama.
Depois de nos dizer que éramos bonitas quis saber afinal de que país éramos. Portuguesas? Então gostam de sardinhas, apressou-se a dizer. Depois convidou-nos: “Hoje vão jantar a minha casa. Eu dou as sardinhas e vocês trazem o vinho”. Dissemos que sim senhor (já que era um convite vago. E mesmo que não fosse, o velho era castiço até pareceu boa ideia.). A senhora do café, que pelos vistos o conhecia, só dizia: “Os fisterranos são todos malucos e este ainda é mais que os outros”. Também lá estava o italiano das rastas, para mim o mais belo homem do caminho. Que nos acenou e seguiu caminho antes de nos decidirmos a partir.
Viemos a cruzar-nos com ele mais à frente. Conversamos um pouco sobre o mergulho e sobre o facto de muitas vezes o terem discriminado por causa das rastas em situações quotidianas. Concordamos que o aspecto não deve condicionar o nosso relacionamento com alguém. Mas de igual forma, algumas comunidades menos formais também discriminam os engravatados e os afins. Ele replica que uma coisa é haver identificação com determinados hábitos e determinada estética e outra é fazer julgamentos de carácter em função do aspecto. Voltamos a concordar. Mais uma vez o ritmo deste caminhante era superior ao nosso, a sua condição física era excelente e as suas pernas davam dois passos de um dos meus. De forma que se despediu dizendo: acho que vou chegar primeiro. Vou ficar com a tua cama. Brincou. Pois quanto a isso não há nada a fazer… Respondi. Eu estou condenada a chegar quando já não há nenhuma. Mas olha sempre me podes emprestar a tua colchonete. E pronto eu que nunca pedia nada a ninguém, lá consegui pedir uma colchonete ao belo italiano que se prontificou imediatamente para ma emprestar. Tinha bom coração o rapaz…
Chegamos a Concubión à hora de almoço.
Uns dormiam.
Outros casavam.
E não conseguíamos avistar nenhum tasco que fosse suficientemente sedutor. Mas como as setas amarelas que indicavam o caminho pareciam ter acabado e ficamos ali um pouco penduradas resolvemos procurar por ali mesmo. E ao virar da esquina vimos o Jean Louis a beber a sua caneca de cerveja na descontracção total de uma bela tarde galega. Aí comi os melhores galamares da minha vida (acho que antes disso só os experimentara congelados) com batata frita verdadeira. Apesar de estarmos à sombra sentíamos no ar aquele dia quente. O Jean Louis declinou o convite para comer connosco os galamares informando que durante a caminhada era só “canhas e bananas” e depois à noite é que jantava senão ficava mal disposto. Esta frase das “canhas e bananas” ficou famosa. Quando ele partiu, decidimos tomar o café no interior.
O tempo parece parado. Mas corre.
Aparentemente tínhamos uma certa tendência para ser sempre as últimas a deixar os cafés.
Vimo-nos à nora para encontrar o caminho. Nada de setas amarelas. Passamos o caminho a perguntar aos nativos. A determinada altura numa encruzilhada, um homem veio ao portão da sua espectacular casa para nos explicar que o município tinha mandado retirar as setas para obrigar os peregrinos a passar pelo centro. Uma estratégia comercial. Egoísmo comercial. Qualquer coisa desse género. Os quilómetros feitos a mais e desnecessários são sempre dolorosos.
Entramos numa zona mais florestal.
Passamos este mural que mencionava 8 quilómetros. Restava saber se era uma informação do caminho... De qualquer forma gostei desta imagem.
E depois mais uma vez, avistar o mar suavizou muito o humor. Fizemos a última parte do caminho junto à praia. A mistura dos veraneantes com os peregrinos era curiosa. Chegamos ao fim do dia e as pessoas deixavam as praias num burburinho de Verão, próprio das localidades de costa.
Momento em que já todos tinham abandonado a areia. O meu preferido em qualquer dia. As coisas desertas atraiem-me.
Fisterra tinha muito mais gente e animação do que as anteriores povoações. Tínhamos passado o festival de folk mas ainda não tinha começado e ficava ainda a uns dois ou três quilómetros de Fisterra.
O albergue municipal estava esgotado desde as duas da tarde. Normal…Cá fora um tipo ofereceu-se para ligar do meu telemóvel para um albergue ali perto que tinha um preço simpático. Mas depois do telefonema o preço duplicara e nós declinamos. O homem teve um ataque de mau feitio. E literalmente disse-nos que era a decisão mais estúpida que podíamos tomar e que haviam de ser dez da noite e ainda havíamos de andar à procura de sítio para dormir. Lá lhe disse que a liberdade de escolha era importante e portanto era indiferente o que ele pudesse pensar. É neste ponto que nos chega um Checo completamente mocado a propor-nos outro albergue. Ainda fomos lá ver mas era uma onda manhosa e também não aceitamos. Finalmente uma velhota veio ter connosco e disse que tinha um quartito para nós. Mas foi hilariante porque ela não queria ser vista pelas vizinhas e mandava-nos esconder enquanto dizia entre dentes “Bruxas, Bruxas. Sempre a meter-se na minha vida”. No caminho encontramos o Jean Louis a quem a velhota também propôs negócio. Levou-o a um apartamento para homens e disse que tinha um para raparigas… E lá nos levou a reboque. Mas a fuga às vizinhas tornava-se tão demorada que o nosso amigo francês já suspirava e dizia que ia desistir. Finalmente conseguimos chegar. Ela mostrou-lhe o quarto e ele entrou. Para nosso espanto a velha, em vez de nos levar ao nosso quarto senta-se na sala desse apartamento em amena cavaqueira, monólogo, connosco. E nós mortas… Às tantas eu digo à Teresa: temos que a apressar senão não saímos daqui. Então lá nos explicou que tinha que ligar a uma amiga para nos levar de carro porque não havia razão para andarmos mais do que já tínhamos andado. Mas não, não era longe. Dizemos-lhe que preferimos andar a esperar. Claro que não. Replica. Mas vamos esperar no café aqui de baixo então. Boa sugestão pensei… Um café ia bem. Vai lá dizer ao teu amigo para me pagar. E eu fui. Bato à porta e o Jean que está na difícil tarefa de tirar as botas diz-me para entrar. Jean a mulher quer que lhe pagues. Ele faz um gesto do melhor enfado francês e diz-me: Claro mas porquê que ela não disse logo. Sim mas despacha-te para ver se ela nos leva ao nosso quarto senão nunca mais. Ele lá pagou à mulher e nós despedimo-nos dele.
Eu bebi um café que me soube pela vida embora estivesse muito abaixo da qualidade a que estava habituada. E a mulher saca do telemóvel e liga à amiga. Onde estás? Pergunta-lhe. “la praia, Carajo, mas que haces tu en la praia, tengo duas portuguesas mui cansaditas” ou qualquer coisa deste género. A outra lá lhe diz que ainda tem que ir tomar banho. E nós vemos a nossa vida a andar para trás. Volto a sugerir à velha que podemos ir a pé e ela nada. Assumo que o quarto deve ser no cú do mundo. Começo a rir porque já são quase nove horas e estamos a aproximar-nos da profecia do homem do mau feitio. O movimento na rua está animado, os espanhóis são um povo que tem essa qualidade e os visitantes seguem-lhe o exemplo. Finalmente chega a amiga que nos leva ao apartamento que era óptimo e não era assim tão longe. Pergunto-lhe o porquê da boleia e ela lá nos confessa que a velha tem dificuldade em andar e não o admite, mas que é muito boa pessoa. O apartamento é partilhado entre nós e um casal de instrutores de Ioga, que encontramos na rua mas nunca vimos em casa. Ainda dei uma vista de olhos a um manual que estava aberto em cima da mesa da cozinha, mas estava em alemão. Depois do banho eram quase onze da noite. Saímos do nosso último andar sem elevador. E aquela dor que sentimos depois de algumas horas de inacção faz-nos sentir que quase não sabemos andar. Como disse a Teresa Inauguramos um andar novinho em folha, usando a expressão do Vinicius de Moraes (inaugurar um verde novinho em folha).
Neste prédio desfocado casava mais alguém.
Bom e nós com o tal andar novinho em folha fomos à procura de jantar a esta hora tardia. Como em Espanha a cozinha dos restaurantes fecha tarde não estávamos muito preocupadas. Mas a verdade é que tivemos alguma dificuldade em encontrar jantar. Vimos um restaurante que estava aberto mas tinha umas cadeiras a barrar a entrada. A Teresa foi perguntar se estava aberto ou fechado já que as cadeiras para ela não eram uma comunicação categórica. À porta um rapaz fumava um charro numa descontracção total. Queres jantar? Já fechamos. Mas eu cozinho para ti. Diz-me o que queres. Olho para ele espantada. Sim. Eu sou o chef. Não tinha nada ar de chef. Mas lembrei-me da conversa com o Italiano. Disse-lhe que ele já tinha saído do trabalho e eu que não queria incomodar. Tu é que sabes, mas era um prazer cozinhar-te qualquer coisa. A Teresa chegou e disse-me que a cozinha estava fechada. Sorri ao chef e disse-lhe que era melhor ele gozar o momento de folga, mas fiquei a pensar que devia ter aceitado. A Teresa diz-me: Se ele é o chef quem era o gajo do barrete que estava na cozinha? Encolho os ombros. Acabamos por ir ao outro que ficava na esquina. Comemos umas amêijoas de cebolada acompanhadas com muito pão e um Alvarinho que deu um rumo muito animado à conversa.
Como se vê as fotos nocturnas não se aproveitam, mas é melhor que nada para quebrar a monotonia do texto...
Depois encontramos um companheiro de caminho cujo nome não fixei e demos todos um passeio pelo cais falando do mistério do caminho e do seu impacto nas pessoas. Foi uma boa forma de acabar a etapa.
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